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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cada um no seu quadrado

Estava lá, escrito no folheto de propaganda de um show de rock, “Comprando antecipado, ganhe 30% de desconto no preço do ingresso.”
Ok, o recado foi dado. Ou alguém ficou em dúvida sobre o conteúdo da mensagem? Acho que não. Porém existe um detalhezinho que deixaria a frase um pouco melhor. Que tal se ela fosse escrita assim: “Comprando antecipadamente, ganhe 30% de desconto no preço do ingresso.” O que mudou? No conteúdo, nada, mas, na segunda forma de escrever, não há nada fora do lugar.
É que a palavra antecipado não pode funcionar como advérbio, por isso, de acordo com a norma culta da língua, não poderia estar acompanhando um verbo. Antecipado pode ser um adjetivo, e, nessa função, deve acompanhar substantivos, o que quer dizer que a mesma mensagem poderia ser corretamente expressa da seguinte forma: “Na compra antecipada, ganhe 30% de desconto no preço do ingresso”.
Querem saber de uma situação em que a confusão entre adjetivo e advérbio é muito comum? No uso de independente e independentemente. Na frase “Independente do resultado, julgamento do mensalão é uma vitória para a democracia brasileira”, título de uma notícia veiculada no site da rádio CBN, o jornalista usou o adjetivo (independente) em vez do advérbio (independentemente). Perceberam?
Comparando as frases seguintes é possível  perceber a diferença: Independentemente da candidatura serrista já se formava consenso em torno de Aécio Neves”, do site do jornal Estado de Minas, e Ex-deputado lança candidatura independente às presidenciais no Chile,”do site Terra.  Perfeito! Advérbio e adjetivo em seus devidos lugares.

Mais uma dica: a palavra rápido pode funcionar tanto como adjetivo como advérbio. Então, se estivermos com muita pressa, podemos dizer “Ande rápido” em vez de “Ande rapidamente”. Vai economizar nosso tempo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O caso do filme terrorista


Hoje eu estava dando uma olhada descomprometida no facebook e li a seguinte frase em uma lista de conselhos sobre etiqueta: No cinema, abra as embalagens de comida antes do filme começar.
Quando li abra as embalagens antes do filme..., imediatamente me vieram à cabeça duas ideias malucas. A primeira delas foi “Nossa, como esses filmes em 3D estão evoluídos. Se eu não abrir rapidamente o meu lanche, pode ser que saia uma mão lá de dentro da tela e roube minha pipoca doce”. A segunda coisa que pensei foi: “Que filme será esse que quer abrir meu lanche antes de mim? Não assisto a ele nem que o Brad Pitt seja o protagonista!”

Ilustração: Fabricio Pinho

Percebi que a possibilidade de um filme competir comigo pra ver quem abre meu lanche primeiro era muito absurda. Então li a frase novamente e desfiz a confusão. É que o fato de (e não o fato do) o autor da frase ter juntado a preposição de e o artigo o criou uma relação semântica entre as palavras antes e filme que, na realidade, não existe. A verdadeira relação deve ser estabelecida entre antes e a oração o filme começar e essa relação é estabelecida pela preposição de. Por isso não devemos, NESSE CASO, fazer a contração da preposição com o artigo.
Vejam só: É diferente dizermos Apesar do frio, fomos todos à festa e Apesar de o frio ter chegado, fomos todos à festa. No primeiro caso, existe relação entre apesar e frio. Então é necessário que haja contração entre preposição e artigo, mas, no segundo caso, não, porque o que se deseja é criar uma relação entre fato e o frio ter chegado. Simples, não é?

Ora, não vamos dar ao leitor o trabalho de reler nosso texto para entender o que queremos dizer. E, no cinema, abra as embalagens de comida antes de o filme começar. Estamos combinados? 

Cuidado com receita de sogra!

Tudo bem, confesso, sou péssima cozinheira. Mas aquela receitinha de bolo de milho parecia tão fácil que poderia ser feita até por mim. E tinha mais, era uma receita da minha sogra, que meu marido adorava. Eu faria sucesso com certeza. Era só misturar todos os ingredientes e “assar em forno preaquecido por 30 minutos”.
Não tive dúvidas, deixei o forno ligado durante 30 minutos e só então coloquei o bolo para assar. Resultado: bolo queimado por fora e cru por dentro e eu totalmente frustrada com mais um fracasso na cozinha.
Liguei para minha sogra para perguntar o que poderia ter dado errado e fiquei aliviada ao saber que a culpa não havia sido totalmente minha. O correto seria assar o bolo por 30 minutos e não preaquecer o forno por 30 minutos. Tudo bem que meu fracasso também pode ser atribuído ao meu desconhecimento do fato de que nunca se aquece um forno durante 30 minutos, mas era isso o que a receita me mandava fazer.
Para escrever um texto claro é muito importante não darmos margens à dupla interpretação. Não devemos presumir que nosso leitor tenha experiência no assunto sobre o qual estamos falando, pois um bom texto é aquele que pode ser compreendido por qualquer leitor. Pode ser que uma pessoa experiente na cozinha não tivesse dúvidas na receita, mas eu tive.
E por que essa ambiguidade aconteceu? Porque o tempo de aquecimento (30 minutos) estava longe do seu referente, que era o verbo assar. Uma tática interessante para escrevermos um texto claro é colocar juntos, SEMPRE QUE POSSÍVEL, os termos que se relacionam entre si.
Será que minha sogra fez de propósito?

Ficaram com água na boca com este post? Então vai a receita:

BOLO DE MILHO

1 lata de milho cozido no vapor
1 lata de leite condensado
1 colher de sopa de margarina
4 ovos
100 gramas de coco ralado
1 colher de sopa de fermento em pó

Bata no liquidificador por 4 minutos e depois acrescente o fermento. Asse por 30 minutos em forno preaquecido.


Onde você mora? Aonde você foi morar?

Quem não conhece a música Onde você mora? do Nando Reis e da Marisa Monte? É aquela que fala assim:

Aonde você mora?
Aonde você foi morar?



Lembraram? Observem uma coisa: o nome da música é Onde você mora?, mas o refrão é Aonde você mora? Será que tem diferença entre onde e aonde? Tem sim. A preposição a indica movimento (como a preposição de em dentre). Por isso aonde deve ser usado com verbos de movimento e onde com verbos que não indicam movimento. Já perceberam, não é? O Nando e a Marisa acertaram no nome da música, mas erraram no refrão porque morar é verbo estático, mas o verbo ir (foi morar) é verbo de movimento. E tem problema? Não. O artistas têm ao seu lado a tal licença poética para defendê-los dos incautos defensores do “bom português”. Mas nós, que não somos poetas, vamos colocar cada palavrinha onde ela possa ficar mais à vontade, deixando nosso texto bem macio, como deve ser um texto claro e gostoso de ler. E aonde vamos escrevendo assim? Longe, com certeza!

Ufa! Desfeitos os mal-entendidos, podemos relaxar escutando uma musiquinha.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A dúvida do Dr. Paulo

Toda vez que  falo com alguém que faço doutorado em linguística, a pessoa imediatamente fala “- Você caiu do céu! Me esclarece uma dúvida...”. Pronto! Eu gelo. Já sei que não vou saber a resposta. Com vocês acontece a mesma coisa? “- Sou médico.” “- Ah, que bom porque estou com uma dor de cabeça, o que você acha que pode ser?” E fica todo mundo meio amarelo, quem perguntou e quem não soube responder.
Outro dia, passei por isso com meu chefe, o Dr. Paulo. Fui à sala dele (justamente me despedir porque eu estava entrando de licença para fazer minha pesquisa de doutorado) e veio a bomba: “- Anya, eu estava discutindo com a minha noiva esse fim de semana e o correto é maqueio ou maquio?” Eu não sabia! Fiquei olhando para o Dr. Paulo, pedindo a Deus que o telefone tocasse, a secretária entrasse, o alarme de incêndio soasse, qualquer coisa que me tirasse daquele sufoco... e nada. Eu devia ter respondido um simples “- Ah, Dr. Paulo, não sei.  Em dois segundos consulto aqui no meu dicionário (que já fica no meu celular para essas emergências)”. Mas eu me lembrei do MARIO e respondi: “- É maqueio!” Não era.
Aí, o estagiário, solícito como todo bom estagiário, consultou o Google e veio correndo me corrigir. “- Não é não! É maquio!” Maldito Google... Maldito MARIO!
O MARIO é um acróstico formado pelas iniciais dos verbos que são conjugados da mesma forma que o verbo odiar. Esses verbos são MEDIAR, ANSIAR, REMEDIAR, INCENDIAR e ODIAR. O M é de mediar e não de maquiar. É um lembrete interessante, mas exige cautela e boa memória.  Agora, sejam sinceros: quem, em sã consciência sairia afirmando que a frase “Eu sempre medeio as discussões na minha família” está correta? Pois está! Ah, faça-me o favor, Sr. Mário, seja bonzinho da próxima vez.

Desculpe-me a falta, Dr.Paulo, não fiz por mal. É que essa língua brincalhona adora pregar peças na gente! 

Têm um tempinho? Então leiam mais sobre os verbos irregulares clicando aqui

domingo, 10 de novembro de 2013

O futuro do Zeca Baleiro

No último CD do Zeca Baleiro, “O disco do ano”, tem uma música muito legal chamada Zás, que diz assim:

O sol irá quarar, o sol irá despir
O sol irá se pôr, o sol irá luzir
Enxuga o pranto vai amanhecer
Enxuga o pranto vai amanhecer
Vai amanhecer enfim
Reparem em uma coisa: o compositor usa dois tipos diferentes de futuro do indicativo, um com o verbo auxiliar no futuro “irá quarar” e o outro com o auxiliar no presente “vai amanhecer”. Apesar de o primeiro uso, com o auxiliar no futuro, estar muito na moda, ele não está previsto nas gramáticas da língua culta.  Então é melhor que usemos o auxiliar no presente ou o verbo principal no futuro (Enxuga o pranto VAI AMANHECER ou Enxuga o pranto AMANHECERÁ enfim).
Se vocês prestarem atenção, vão perceber que os repórteres da Globo têm usado muito essa peculiar forma de futuro, mas nunca vi o William Bonner fazê-lo. Sigamos os bons e seremos um deles! Observem e divirtam-se!
E o Zeca Baleiro não é bom? É excelente, assim como seu último CD. No amor e na arte podemos tudo. E viva a licença poética!
Querem escutar a música Zás? Vale a pena! 


O uso do através

Muita gente tem usado o advérbio através com sentido de por meio de. A Linguística Cognitiva tem uma boa explicação para isso: a maneira como processamos a ideia de que uma coisa acontece por meio de outra é a mesma como nosso sistema conceptual entende o processo de travessia de lado a lado, que é o significado primeiro de através. E vamos combinar que por meio de é muito pedante, não é mesmo?
Acontece que, na maioria das vezes, é possível substituir, por uma preposição, o através utilizado no sentido de por meio de. Vejamos: A frase “Para mais informações, entre em contato através do telefone tal”, ficaria melhor ainda assim “Para mais informações entre em contado pelo telefone tal”. E a frase “Tudo veio à tona através do ofício-circular número 1/2013” não ficaria melhor se o advérbio através fosse substituído pela proposição com, por exemplo? “Tudo veio à tona com a divulgação do ofício-circular número 1/2013”. Percebam que houve uma pequena alteração da frase para melhorá-la, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena e quando o objetivo é escrever de forma mais clara para o nosso leitor.
Façamos assim: quando quisermos indicar travessia, usaremos através como em “Vi através da vidraça que meu chefe já tinha estacionado o carro” (meu olhar atravessou a vidraça), mas, se o sentido for por meio de, mexamos no texto se for preciso, mas vamos preferir uma preposição. Sempre tem um jeito!


Para saber mais sobre os advérbios, clique  aqui .

O uso da preposição dentre


Dentre, de (preposição) + entre (preposição), quer dizer do meio de e a função da preposição de é indicar movimento. (Essa é apenas uma das muitas funções da preposição de. Não é esta a nossa intenção, a de demostrar movimento, quando dizemos, por exemplo, “acabei de chegar de lá e estava uma loucura”?) Por isso dentre deve ser usado somente com verbos de movimento, como surgir, destacar etc. Assim,  o uso “dentre as hipóteses apresentadas, a mais plausível é a primeira” não é o melhor porque o verbo ser não é verbo de movimento, então a proposição de fica sem função na frase, fica sobrando e um bom texto é aquele em que nada falta e nada sobra!
Melhor nesse caso seria escrever “entre as hipóteses apresentadas, a mais plausível é a primeira”.  Já a frase “Dentre as hipóteses apresentadas, destaca-se a primeira por ser a mais plausível” é bacana porque destacar é um verbo de movimento, esse movimento deve ser representado e a preposição de faz isso muito bem!

Outro dia,  abri o livro “O prisioneiro do céu”, de Carlos Ruiz Zafón, e lá estava:  "Para Fermín Romero de Torres, que retornou de entre os mortos e tem a chave do futuro."  Sabe tudo esse tradutor, hein? Ele poderia ter escrito assim:  "Para Fermín Romero de Torres, que retornou dentre os mortos e tem a chave do futuro." Também ficaria perfeito! A propósito, é uma delícia de livro. Indico!

Quer saber mais sobre o uso das preposições? Clique aqui.